Dom Carmo João Rhoden
Bispo Emérito de Taubaté (SP)
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| Imagem: Canção Nova |
Texto Referencial: “Não se perturbe o vosso coração. Tendes fé em Deus, tende fé em mim também. (Jo 14,1)
Memento mori. De fato, nada mais certo que morte e nada mais incerto que seu momento. Ao nascer já trazemos o vírus da morte conosco. Morrer é normal, mas é anormal gostar da morte, pois fomos criados para viver. Acentuo: homens e mulheres a partir do projeto de Deus, não foram feitos para morrer, mas para viver, para o encontro e não para desunião, para o amor e não para o ódio. No entanto, os homens se tornaram misteriosos reciprocamente e chegam até a temer-se. Ao longo de nossas rodovias, encontramos cruzes que lembram a morte. Por isso, o berço as vezes não está longe do túmulo.
A criatura racional carrega em seu interior a dor da finitude, e ao mesmo tempo saudades da infinitude. Sim, o homem teme a morte que chega a ser a espada de Dâmocles colocada sobre a sua cabeça. Falando mais existencialmente afirma Heindegger Sein zum Tode: ou seja, nós existimos para a morte. Outros diante dela, se revoltam e chegam até a blasfemar contra Deus. De fato, não é fácil raciocinar sobre a beleza da vida e sua importância, passando diariamente diante de cemitérios sem dúvida, olhar a vida sartreanamente é tornar-se míope em relação a esperança cristã, que deveria alimentar nossas vidas, nosso futuro.
Nós, no entanto somos cristãos. Cremos no Ressuscitado e procuramos seguir seus passos. Mesmo sentindo o peso da caminhada, somos iluminados pela palavra geradora de sentido, nutridos pela Eucaristia, e assim alimentados para prosseguimos fraternalmente, com os outros irmãos e irmãs peregrinos como nós. Dirigimo-nos, decididamente para frente sinalizados pela bússola do Evangelho de Jesus olhando assim para o alto, de onde nos vem a força, de continuarmos a luta, pois vamos para a casa do Pai. Jesus afirma: “na casa de meu Pai há muitas moradas: uma é para mim, as outras, são para os irmãos”. Devo, no entanto, desejá-la buscando-a, mesmo que na dura peregrinação deste mundo. Dura, mas exitosa, com a graça de Deus. Não contabilizamos tanto a quantidade de nossos anos, mas sua qualidade. Anima-nos o discipulado de Jesus, que nos fortalece a carregar a cruz, mostrando-nos, quanto somos importantes para o Pai Celeste. Maria – nossa Mãe – também nos espera amorosamente e nós temos consciência disso.
Por isso o dia 02 de novembro não é antes de tudo dia de tristeza e lamentação para nós. Portanto não vamos apenas visitar nossos cemitérios, para tristonhos, sentir deslizar cultivas lágrimas de nossas faces, nem somente para levar flores para ornar o túmulo de nossos familiares e amigos. Vamos como Igreja peregrinante ao encontro daquela triunfante, ou seja, celeste, conscientes de que devemos passar por aquela padecente (purgatório) pois temos consciência de que somos pecadores. Aliás, não é difícil constatá-lo: basta analisar algumas frações de nossas próprias vidas, ou algumas situações de nossa época: Fome, miséria, mortes, suicídios e guerras. Não basta? Sim, a amostragem já é suficiente, ela é o pedágio a ser pago pelo nosso trânsito pouco cristão pelos caminhos da vida. 4.1 Vamos então para nossas Igrejas ou então nossos cemitérios sobretudo para orar pelos familiares e amigos já falecidos. Vamos para suplicar sua intercessão. Repito: formamos a grande Igreja de Cristo: peregrinante, padecente ou triunfante, exercitamos assim a misteriosa, mas real solidariedade existente entre nós. Lembramo-nos de que eles já foram, e nós estamos a caminho. Sim, iremos também, mas sem medo nem pressa ou outros sentimentos menos nobres. Jesus – nosso Salvador –, nossa mãe Maria e tantos outros santos e santas por nós estão esperando. Portanto o Dia de Finados, nos faz olhar para traz realisticamente e esperançosamente para o futuro (conf. salmo (89) (90), 12.
Somos viajantes com fé gratos pela vida presente e desejosos daquela futura, repito: sem pressa…, mas confiantes. Irmãos, já, falecidos, intercedei por nós. Nós também não esqueceremos de vós, somos cristãos.


