segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Comemoração de todos os fiéis defuntos

Dom Carmo João Rhoden
Bispo Emérito de Taubaté (SP)

 

Imagem: Canção Nova

Texto Referencial: “Não se perturbe o vosso coração. Tendes fé em Deus, tende fé em mim também. (Jo 14,1)

Memento mori. De fato, nada mais certo que morte e nada mais incerto que seu momento. Ao nascer já trazemos o vírus da morte conosco. Morrer é normal, mas é anormal gostar da morte, pois fomos criados para viver. Acentuo: homens e mulheres a partir do projeto de Deus, não foram feitos para morrer, mas para viver, para o encontro e não para desunião, para o amor e não para o ódio. No entanto, os homens se tornaram misteriosos reciprocamente e chegam até a temer-se. Ao longo de nossas rodovias, encontramos cruzes que lembram a morte. Por isso, o berço as vezes não está longe do túmulo.

A criatura racional carrega em seu interior a dor da finitude, e ao mesmo tempo saudades da infinitude. Sim, o homem teme a morte que chega a ser a espada de Dâmocles colocada sobre a sua cabeça. Falando mais existencialmente afirma Heindegger Sein zum Tode: ou seja, nós existimos para a morte. Outros diante dela, se revoltam e chegam até a blasfemar contra Deus. De fato, não é fácil raciocinar sobre a beleza da vida e sua importância, passando diariamente diante de cemitérios sem dúvida, olhar a vida sartreanamente é tornar-se míope em relação a esperança cristã, que deveria alimentar nossas vidas, nosso futuro.

Nós, no entanto somos cristãos. Cremos no Ressuscitado e procuramos seguir seus passos. Mesmo sentindo o peso da caminhada, somos iluminados pela palavra geradora de sentido, nutridos pela Eucaristia, e assim alimentados para prosseguimos fraternalmente, com os outros irmãos e irmãs peregrinos como nós. Dirigimo-nos, decididamente para frente sinalizados pela bússola do Evangelho de Jesus olhando assim para o alto, de onde nos vem a força, de continuarmos a luta, pois vamos para a casa do Pai. Jesus afirma: “na casa de meu Pai há muitas moradas: uma é para mim, as outras, são para os irmãos”. Devo, no entanto, desejá-la buscando-a, mesmo que na dura peregrinação deste mundo. Dura, mas exitosa, com a graça de Deus. Não contabilizamos tanto a quantidade de nossos anos, mas sua qualidade. Anima-nos o discipulado de Jesus, que nos fortalece a carregar a cruz, mostrando-nos, quanto somos importantes para o Pai Celeste. Maria – nossa Mãe – também nos espera amorosamente e nós temos consciência disso.

Por isso o dia 02 de novembro não é antes de tudo dia de tristeza e lamentação para nós. Portanto não vamos apenas visitar nossos cemitérios, para tristonhos, sentir deslizar cultivas lágrimas de nossas faces, nem somente para levar flores para ornar o túmulo de nossos familiares e amigos. Vamos como Igreja peregrinante ao encontro daquela triunfante, ou seja, celeste, conscientes de que devemos passar por aquela padecente (purgatório) pois temos consciência de que somos pecadores. Aliás, não é difícil constatá-lo: basta analisar algumas frações de nossas próprias vidas, ou algumas situações de nossa época: Fome, miséria, mortes, suicídios e guerras. Não basta? Sim, a amostragem já é suficiente, ela é o pedágio a ser pago pelo nosso trânsito pouco cristão pelos caminhos da vida. 4.1 Vamos então para nossas Igrejas ou então nossos cemitérios sobretudo para orar pelos familiares e amigos já falecidos. Vamos para suplicar sua intercessão. Repito: formamos a grande Igreja de Cristo: peregrinante, padecente ou triunfante, exercitamos assim a misteriosa, mas real solidariedade existente entre nós. Lembramo-nos de que eles já foram, e nós estamos a caminho. Sim, iremos também, mas sem medo nem pressa ou outros sentimentos menos nobres. Jesus – nosso Salvador –, nossa mãe Maria e tantos outros santos e santas por nós estão esperando. Portanto o Dia de Finados, nos faz olhar para traz realisticamente e esperançosamente para o futuro (conf. salmo (89) (90), 12.

Somos viajantes com fé gratos pela vida presente e desejosos daquela futura, repito: sem pressa…, mas confiantes. Irmãos, já, falecidos, intercedei por nós. Nós também não esqueceremos de vós, somos cristãos.

RHODEN, Carmo João. Comemoração de todos os fiéis defuntos. CNBB, 2026. Disponível em:  https://www.cnbb.org.br/comemoracao-de-todos-os-fieis-defuntos-7/#. Acesso em: 02 nov. 2026.


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